1º Dia
“Bem, acabei de chegar. Vim toda a viagem a pensar se fiz bem ao mal, e confesso ter tido vontade de desistir e voltar. Mas depois pensei melhor e vi que isto vai ser o melhor para mim, portanto, vou é começar uma vida nova e cagar para o passado”.
Foram exactamente estas as únicas palavras que escrevi no primeiro dia, num caderno que tinha comprado numa estação de serviço perto de Coimbra. Ainda me lembro como se fosse hoje, um dia em que o tempo parecia não parar, um dia em que tive de reorganizar a minha vida e começa-la do zero.
Quando cheguei a Lisboa a primeira coisa que fiz foi parar num café na gar do oriente comprar um jornal e começar uma tarefa que se mostrou muito complicada. ARRANJAR CASA NUM DIA. Lembro me de ter sublinhado quase todo o jornal na parte dos classificados, de ter carregado o telefone com 15 euros (e de o voltar a carregar com mais 25 meia hora depois). E este foi o ponto de partida para uma longa tarde de visitas. Visitei cerca de 30 apartamentos que não serviam ou porque eram muito caros ou porque não tinham as mínimas condições. E só quando a esperança e a lista começavam a acabar encontrei aquela que seria a minha casa durante o tempo que vivi em Lisboa. Ficava na praça da figueira, no rossio, era uma casa linda, um quinto andar, vista para o castelo de são Jorge. E o mais bonito que vim a saber algumas horas depois, ficava junto a zona gay. Digo algumas horas depois porque bastou sair a rua para me deparar com algumas personagens engraçadas.
Depois o mais bonito foi ter ido jantar fora porque não tinha vontade para cozinhar e ter entrado sem reparar num restaurante que era praticamente frequentado só por gays e em vez da conta ter recebido muitos bilhetes. Pois, aquilo parecia um género de talho, onde todos tentavam ter a carne mais fresca (acabada de chegar). Entre esses bilhetes, destacou se um que dizia: “bem, sei q tas farto de receber bilhetes e é so para te dizer para teres cuidado, aqui ninguém ou quase ninguém pensa nos sentimentos”. Nunca descobri quem o escreveu mas desconfio.
A seguir ao jantar, fui para casa e fiquei varias horas a olhar para o bilhete, devo ter adormecido lá para as 5 da manha.

